Hildegard von Bingen – Parte 1

 

Hildegard von Bingen – Sagrado e egrégora femininas, do Século XII ao XXI

Não podemos viver em um mundo que não seja o nosso, em um mundo que seja interpretado para nós por outros. Um mundo interpretado não é um lar. Parte do medo é escutar nossa voz interior, usar nossa própria voz, ver nossa própria luz.

Hildegard von Bingen

 

Introdução

No decorrer dos anos de pesquisa e trabalho com o Sagrado Feminino, encontrei inúmeras conexões entre o meu trabalho e o de Hildegard von Bingen, mesmo separadas por mais de mil anos.

Estamos no século XXI. A maioria dos que vivem agora nasceram no Século XX. Ainda pensamos, em muitos casos, como os homens e mulheres do Século XIX. Vivemos uma lógica industrial idealizada no século XVIII. Ainda desejamos ideais do Século XVII. E assim vivemos numa espiral descendente do tempo. Muitos de nossos mitos são milenares e muitos de nossos medos são oriundos de nossa própria essência.

Costumamos olhar para o passado, o revisitamos e recriamos à imagem e semelhança de nossos desejos. Percebemos o quanto somos parte de um processo sistêmico ancestral que impacta nossa essência humana.

Frequentemente pensamos o passado a partir de nosso ponto de vista e é assim que tem que acontecer. É impossível vivenciar o passado com um olhar contemporâneo dele. No campo morfogenético de Rupert Sheldrake[1] e nos campos quânticos, experimentamos uma conexão com o passado, mas isso não nos isenta de olharmos esse passado a partir de nossa forma de ver o mundo hoje. Somos seres do presente e impregnados dessa cultura da realidade que vivemos agora, não nos furtamos de olhar o passado com olhos preconceituosos.

É normal pensarmos o tempo como uma passagem evolutiva do ser humano, como se passado fosse atraso, o presente a ascensão e o futuro o auge da humanidade, mas certamente nessa equação não cabem as diferenças geográficas, culturais, ideológicas, sociais e tantas outras que nos unem e diferenciam como espécie na terra.

É com essa introdução que sugiro olhar o passado com o mesmo amor e cuidado que nos dedicamos a manusear um objeto de cristal fino. Esse cristal é o valioso legado vindo das gerações passadas.  Precisamos olhar esse passado e procurar entender as conquistas, sonhos e conhecimentos que nos chegam, sem interpretá-los como menores ou ridículos se comparados com o que temos hoje.

São essas gerações e seus códigos relacionais que nos trouxeram até aqui. Não nos empurrando numa escada civilizatória ascendente e cumulativa, mas permitindo que o fluxo da vida e do conhecimento se espalhasse, com seus erros e acertos nessa grande espiral do tempo.

Hildergard von Bingen

Ouse declarar quem você é. Não estão longe as margens do silêncio dos limites do discurso. O caminho não é longo, mas o caminho é profundo. Você não deve apenas caminhar até lá, deve estar preparado para saltar.

Hildegard von Bingen

 

Essa introdução foi importante para falarmos de Hildergard von Bingen. esta mulher do início do Século XII.

E quem foi essa mulher?

Nascida há mais de 900 anos, Hildegard (1092 – 1179) viveu numa época onde a igreja católica exercia grande poder e estava em um processo de expansão de sua influência através das cruzadas e das perseguições contra o que a igreja considerava heresia, através da Inquisição, que como sabemos, foi responsável por milhares de mortes de mulheres.

Neste período conturbado da história, onde o patriarcado da igreja exercia um papel predominante e opressor, Hildegard construiu um legado para a questão do feminino, construindo uma egrégora de mulheres monjas e deixando vasto patrimônio intelectual.

Ela foi uma monja beneditina, mística, teóloga, compositora, pregadora, naturalista, médica prática, poetisa, dramaturga, escritora, entre outras atividades. Seu legado tem impactado através dos séculos e nos mostrado uma mulher que conseguiu se tornar referência numa sociedade patriarcal, fechada e opressora. Se tornou confidente de papas e poderosos. Tinha visões e interpretações próprias do evangelho. Criou uma língua nova para manter sob sigilo de sua egrégora os assuntos que conversavam para não serem compreendidas pelos monges beneditinos. Escreveu tratados sobre medicina natural, escreveu sobre sexualidade feminina e masculina e sobre reprodução. Escreveu sobre botânica, entre outros assuntos.

Hildegard foi uma referência importante de mulher empoderada e que impactou a sociedade da época em que viveu, e através dos séculos. Hoje, em virtude de sua santificação e designação como Doutora da Igreja Católica por Bento XVI, há uma renovação do interesse por sua obra.

Hildegard é vista por algumas pessoas hoje com o olhar do preconceito ou do presente como falamos em nossa introdução. Alguns pesquisadores a relacionam com o feminismo e outros a colocam como uma elitista por privilegiar mulheres ricas em sua egrégora, outros falam de sua práticas curativas como uma pseudo medicina ou relevam sua aplicabilidade hoje, como prática de saúde natural. Esquecem que o mundo do século XII tem uma realidade e uma lógica social que não tem absolutamente nada a ver com o que vivemos hoje.

Entendo que a leitura e a compreensão de Hildegard, tem que ser realizada a partir de uma visão amorosa da preciosidade que é esse conhecimento,  dele ter chegado até nós, e da surpreendente forma com que essa mulher conseguiu passar por uma das épocas mais duras e difíceis do cristianismo.

A validação de muitas de suas receitas e remédios, tem sido feitas à luz das práticas das 07 saúdes, da bioenergia, da medicina natural e das terapias complementares e integrativas. Olhando com a visão holística, que enxergue o todo, podemos compreender melhor esses ensinamentos e utilizar o que eles tem de melhor para nossa saúde e nossa vida.

Fujamos portanto do lugar comum ao pensar esse passado sistêmico. Não há julgamento. Não há culpa.

O que então nos conecta, em pleno século XXI, com essa Monja do Século XII?

Visitarmos e revisitarmos esse conhecimento é dar a ele uma atualização. Essa atualização é a sua aplicação hoje, à luz dos ensinamentos dela em sua época.

A atualidade dos pensamentos e práticas de Hildegard vem de encontro ao movimento que se expande desde os anos 1960, na busca de alimentação mais natural, tratamentos mais naturais e uma filosofia que integre o feminino com o respeito à natureza, ao nosso corpo e a sociedade em que vivemos.

Em pleno século XXI, as ideias e conhecimentos de Hildegard tem um valor inestimável, ao nos levar ao encontro de experiências filosóficas, musicais, místicas, de cura e alimentação.

É interessante como as influências sistêmicas e conceituais do conhecimento de Hildegard, vem ao encontro das práticas e ensinamentos que desenvolvo com a Egrégora das Deusas, caminho que seguimos há mais de 30 anos, no empoderamento feminino.

Além disso, , como disse na introdução, vejo que há uma conexão de minha vida de pesquisas e práticas sobre o sagrado feminino e sobre o empoderamento da mulher. São décadas de intensa dedicação, buscando nos 4 cantos do mundo, o conhecimento do sagrado feminino e o repassando a mulheres esse ensinamento, caminho que sigo com um lindo fio que sustenta mulheres em grupos. Mais de 6.000 mulheres deram o salto em direção ao seu objetivo mais profundo, usando de conhecimentos sagrados, com a energia e sabedoria das práticas diárias de saúde das Deusas Divinas . São 30 anos de empoderamento feminino levado a sério! “Ser – io” . Sendo eu fui mostrando a minha essência que lapido com disciplina rígida e muito cuidado todos os dias.

 

[1] http://www.esalq.usp.br/lepse/imgs/conteudo_thumb/Resson-ncia-m-rfica.pdf

 

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