ALTERIDADE: A TROCA DE PAPEIS NAS CONSTELAÇÕES

ALTERIDADE

 

Gostaria de trazer a vocês uma reflexão sobre um conceito que é pouco comentado, mas muito utilizado, até mesmo nas Constelações Sistêmicas, o da ALTERIDADE.  O que é alteridade?

A palavra alteridade vem do latim alteritas, que significa ser o outro, portanto, designa o ato de colocar-se no lugar do outro, de perceber o outro em suas singularidades e diferenças. É um pressuposto da tolerância na convivência com os diferentes de nós mesmos. E um exercício de percepção da diversidade da humanidade e das gerações passadas e futuras, e, portanto, de aceitação de que o outro é um diferente de mim, e com isso posso aprender com ele.

O Antropólogo Carlos Rodrigues Brandão tem um texto clássico sobre a Alteridade, ele diz:

O diferente é o outro, e o reconhecimento da diferença é a consciência da alteridade: a descoberta do sentimento que se arma dos símbolos da cultura para dizer que nem tudo é o que eu sou e nem todos são como eu sou. Homem e mulher, branco e negro, senhor e servo, civilizado e índio… O outro é um diferente e por isso atrai e atemoriza. É preciso domá-lo e, depois, é preciso domar no espírito do dominador o seu fantasma: traduzi-lo, explicá-lo, ou seja, reduzi-lo, enquanto realidade viva, ao poder da realidade eficaz dos símbolos e valores de quem pode dizer quem são as pessoas e o que valem, umas diante das outras, umas através das outras. Por isso o outro deve ser compreendido de algum modo, e os ansiosos, filósofos e cientistas dos assuntos do homem, sua vida e sua cultura, que cuidem disso. O outro sugere ser decifrado, para que lados mais difíceis de meu eu, do meu mundo, de minha cultura sejam traduzidos também através dele, de seu mundo e de sua cultura. Através do que há de meu nele, quando, então, o outro reflete a minha imagem espelhada e é às vezes ali onde eu melhor me vejo. Através do que ele afirma e torna claro em mim, na diferença que há entre ele e eu (1986, p.7). [i]

Podemos compreender as palavras do professor Brandão pelo viés da Psicologia, da Antropologia, da História, da Sociologia e podemos trazê-las à luz da cultura do pensamento constelatório e pensar no como atuamos nas práticas interpretativas do antepassado e como, muitas vezes, o julgamos pelo olhar de nossa própria cultura atual, por nossa ética e nossa moral. Voltemos a frase do professor Brandão:

O diferente é o outro, e o reconhecimento da diferença é a consciência da alteridade: a descoberta do sentimento que se arma dos símbolos da cultura para dizer que nem tudo é o que eu sou e nem todos são como eu sou.

As descobertas do processo constelatório, quando mergulhamos no passado e nas linhagens passadas do constelado, estão muitas vezes impactadas por nossos preconceitos atuais sobre as atitudes e comportamentos passados e, geralmente, se ligam ao passado e presente do próprio interpretador do personagem, trazendo à tona questões de seu próprio passado e de suas linhagens.

Hellinger desenvolveu a ideia de que não somos exclusivamente individuais, e sim, antes de tudo, partes de uma alma coletiva, observando a sabedoria da cultura zulu e integrando esta perspectiva a vários sistemas interpretativos da psicologia e da teologia.

(…) entre o inconsciente individual descrito por Freud (vinculado ao uma ideia de si oriunda dos pais) e o inconsciente coletivo descrito por Jung (vinculado a arquétipos gerais da humanidade), há o que Hellinger intitula inconsciente familiar sistêmico, ao qual cada indivíduo pertence e expressa, ainda que não tenha plena ou qualquer consciência disto.[ii]

Dentro desse inconsciente familiar sistêmico, nós vivenciamos a experiência da alteridade. E quando falamos durante o processo constelatório que não há culpa e não há julgamento, estamos dentro dessa prática da alteridade, nos colocando no papel do outro, procurando não julgar suas atitudes no passado, pois foram elas que levaram a linhagem aos dias atuais. Tudo foi como foi para se chegar até aqui. Para que a vida chegue até aqui

Vivemos nos colocando no papel do outro, inclusive vejo como assustador o número elevado de pessoas que em nossos tempos se coloca no papel de seu  pai ou de sua mãe, tomando o  lugar de outro para sempre e perdendo a chance de ser filho e seguir sua vida adiante, viver olhando a vida do seu lugar. Porque o sistema familiar continua mantendo os referenciais de vida, mas o peso do julgamento, da culpa, do medo, da religião, dos comportamentos sociais e de grupos, muitas vezes nos impedem de vivenciar essa alteridade, esse outro, de uma forma saudável a fim de ampliar nossos conhecimentos e percepções  sobre o mundo que nos cerca.

Se por um lado, os avanços tecnológicos nos permitem “caminhar” pelo mundo em segundos, falar com pessoas que estão em diferentes partes do mundo instantaneamente, as constelações e outras ferramentas nos permitem viajar pelo tempo através do campo morfogenético e encontrar esse outro que nos representa e complementa na alteridade e na passagem dos séculos. E é com esse outro que dialogamos, ouvimos suas queixas e preocupações e com quem falamos no ajustamento da linhagem. Com ele estabelecemos a alteridade e com ele buscamos aprender a não nos deixar levar por nossos preconceitos e a compreender esse outro. Esse outro que também habita em nós.

Se Bert Hellinger, nas Constelações Sistêmicas nos mostra traços de comportamento e personalidade, de códigos relacionais vindos de 11 gerações antecessoras à nossa, imagine como podemos nos ver em cada um desses e ao mesmo tempo a nós mesmo, fazendo um mix de alteridade com autoconhecimento fluindo com leveza e consciência.

Dentro das propostas de Bert Hellinger, entendemos que quando estamos em paz e em ordem com os membros das linhagens familiares, nós também nos alinhamos com nossos próprios propósitos de vida – que estando em harmonia com pai, mãe, antepassados e parentes próximos, pode se concretizar no processo de vida de cada um de nós.

A constelação vem nos auxiliar a compreender o papel de sermos humildes e acalmarmos nossa inquietação diante do desconhecido e a compreendermos o outro, seja ele uma personagem de uma constelação, ou alguém com quem nos relacionamos na sociedade como alguém que não tem que ser reduzido em nossa leitura sobre ele, mas compreendido em nossas diferenças fundamentais que nos fazem UM diante do TODO que é a junção de nossas individualidades.

[i]   Brandão, CR. Identidade e Etnia. S. Paulo, Ed. Brasiliense, 1986. 

[ii] Ramos, Paola Novaes in https://petpol.wordpress.com/2012/08/03/condicao-humana-pertencimento-e-individualidade/ (Consultado em 20 de janeiro de 2021)

 

@claudyatoledooficial

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