Dualismo na Constelação Sistêmica e na mitologia dos índios Kaingang

Uma das questões primordiais para a compreensão das Constelações é o Dualismo nas representações das complementariedades sistêmicas: o Sol e a Terra, a Pátria e o Governo, o Pai e a Mãe, a Cabeça e o Coração, o Yin e o Yang.

Isso se reflete no nosso passado materno e paterno. Pai e Mãe, avô e avó maternos, avô e avó paternos e assim sucessivamente numa sistêmica dupla e complementar, homem e mulher, masculino e feminino, mental e emocional. Por outro lado, os pais concebem a filha ou o filho, que busca sua complementariedade energética para geração dos seus descendentes.

O Dualismo é uma concepção filosófica ou teológica do mundo baseada na presença de dois princípios ou duas substâncias ou duas realidades opostas e normalmente complementares. O bem e o mal, Yin e Yang, corpo e mente, corpo e alma, masculino e feminino.

Essas realidades ou polaridades opostas ou complementares são descritas por diversas sociedades antigas e se apresentam a nós através de sua herança cultural e seus mitos de origem. Normalmente esses mitos nos remetem à necessidade de equilíbrio, entre os dois diferentes princípios.

 Em alguns casos, no entanto, essas visões quase que antagônicas (mesmo que incorporem em si o outro, num processo de assimilação da alteridade), refletem desde questões filosóficas que perduram por milênios, até questões religiosas, em especial do cristianismo.

Adão e Eva

 “No princípio, Yahvéh Deus criou o céu e a terra.” Assim começa o Gênesis do Velho Testamento. Dois espaços diferentes, complementares e simbólicos do corpo e da alma.

 No mito de criação Judaico/cristão, Deus cria Adão e por conta de sua solidão, impactada pelo fato de que todas as espécies no Éden viviam em pares, tinham o masculino e o feminino, cria Eva. A completude da mulher e do homem, do dualismo racionalismo e sensibilidade, masculino e feminino, parecia realizado.

Mas Eva se alimenta da Árvore do Conhecimento, e a sequência da história é parte do mito e o início da supressão do feminino. Eva passa a ser vista como pecadora, errada, culpada da saída do homem do “Paraíso”, entre inúmeros outros adjetivos negativos que lhe foram atribuídos no decorrer da história dessas grandes religiões.

Essa definição de Eva e, portanto, do feminino, dentro da mitologia Judaico/cristã, vem causando, há milênios, perseguições contra a mulher em todas as partes do mundo impactadas pelos preceitos do Cristianismo. 

A Constelação Sistêmica vem nos mostrar que somos feitos de Pai e Mãe, Masculino e Feminino, Linhagens maternas e paternas, numa dualidade geracional contínua .

E como dizemos no processo constelatório, não há julgamento sobre a vida de nossos antepassados, pois tudo que eles fizeram e como o fizeram é que nos permitiu receber agora a vida.

Eva foi muito julgada (e ainda é), mas seu ato curioso e corajoso, deu o livre arbítrio e o acesso ao conhecimento para a humanidade. E esse julgamento religioso manteve a mulher prisioneira secular de uma visão equivocada associada muitas vezes ao mal, portanto, em desequilíbrio com as energias que compõe o Dualismo Homem e Mulher.

A Mitologia Kaingang

Nos contatos com as tribos da América, os europeus procuraram impor o seu viés cultural, sua leitura de mundo e sua religião. Existem inúmeros relatos de europeus que para cá vieram desde 1500, narrando suas relações com os índios e a história das tribos, que demonstram uma leitura enviesada.

As tribos Tupi, por exemplo, tinham uma divindade que chamavam de Sumé, Zumé ou Tumé, que teria vindo e ensinado sobre o fogo e várias outras ferramentas civilizatórias para as tribos. Os religiosos que para cá vinham associaram, num sincretismo religioso, com São Thomé, que segundo o mito teria ido pregar o cristianismo na Índia.

Dentro dessa ótica, nos encontros com as tribos, era comum que a macro visão religiosa imperasse, incluindo uma visão negativa das índias, sua nudez e seu hábitos sociais e religiosos. Foi comum a supressão dessa mulher e de sua importância nas narrativas dos europeus, bem como das deusas das múltiplas etnias que aqui habitavam.

Um bom exemplo é a história da mitologia Kaingang (palavra que se refere à gente do mato), tribo cristianizada desde os primeiros contatos com os europeus. Esses índios tinham e ainda tem uma organização social, cultural e religiosa, pautada pelo Dualismo. A história de Kainru e Kamé, os gêmeos civilizadores dos Kaingang, nos é apresentada como sendo de dois deuses masculinos, diferentes e complementares, cujos atributos servem de base para a organização social tribal.

 É certo que percebemos que o Xamanismo Kaingang resiste e sua mitologia se faz representar nas artes, cestarias, comportamento social e cultural.

Cada um dos atributos desses Deuses está presente nos grupos que representam cada um dos lados. As interações são as mais diversas e interessantes. O que é importante aqui é perceber como a supressão do feminino impacta na visão de mundo e na configuração do plano espiritual dessas tribos. Uma supressão que veio com os missionários cristãos e ainda com o peso da decisão de Eva.

 No levantamento indicado abaixo estão as definições básicas de Kainru e Kamé[1]:

 

A literatura antropológica fala em metades patrilineares (vindas da linhagem paterna), mas é muito claro na leitura acima, que para que esse Dualismo funcione é necessário uma parte Feminina e uma Masculina. Pela própria descrição, Kainru é a parte feminina e Kamé a masculina.

O discurso Kaingang, idealmente, costuma enfatizar com frequência a complementaridade entre as metades, de um lado, e entre sociedade e natureza, de outro, sublinhando as relações aparentemente simétricas entre opostos, no primeiro caso, e marcando a possibilidade de relação entre mundos concebidos diferentemente, no segundo caso. Na verdade, este princípio dialético marca continuamente o discurso Kaingang, que aponta para a “aversão e o horror à junção de coisas iguais porque elas são estéreis” e que dissemina a ideia de que “a fertilidade vem da união dos princípios contrários” (Veiga, 2000, p. 79).[2]

O processo de assimilação cultural e religiosa Kaingang muito provavelmente suprimiu essa informação do sagrado feminino, que, no entanto, nos chega através das próprias descrições dos grupos tribais de hoje, em que pese sua vinculação religiosa atual. Ou seja, o Xamanismo e a Cosmogonia Kaingang resiste, embora com a figura feminina de Kainru disfarçada.

No artigo “O xamanismo Kaingang como potência decolonizadora”[3], os pesquisadores Clémentine Ismérie Maréchal e Herbert Walter Hermann, comentam que:

Os primeiros ensinamentos são protagonizados por duas mulheres, a primeira kujà que se torna presente na vida cotidiana Kaingang manifestando-se no sonho de outra mulher, que aceitará receber os conhecimentos e assim se tornará kujà de uma comunidade. (…). O primeiro é a importância dos sonhos na construção e na prática do xamanismo Kaingang e o segundo é o protagonismo feminino no nascimento do xamanismo Kaingang.

 

[4]

Percebemos que a figura da Kujá, central no xamanismo Kaingang, é um espaço de resistência do feminino sagrado, manifesto nos processos de cura e sucessão de uma mulher espiritual em sua orientação de outra. No desenho acima tirado do mesmo artigo, vemos a representação feita por uma menina Kaingang.

Conclusões

Como parte de nossa discussão sobre a importância da dualidade na Constelação Sistêmica, procuramos demonstrar como essa situação é disseminada na sociedade humana e como se torna importante vivenciarmos o equilíbrio entre os lados. O artigo de Clémentine e Herbert afirma que:

Um dos traços mais marcante da socialidade Kaingang encontra-se na complementariedade ancorada no seu sistema cosmológico dualista (Silva, 2002), dividindo-se entre as metades Kamé (a metade vinculada a rã, o sol) e Kanheru-Kré (a metade vinculada a kysã, a lua). As duas metades, na medida em que se opõem, também se complementam. A literatura especializada apresenta diversos exemplos dessa operatividade cosmológica, em termos sociais, o casamento é um deles, pois é vedada a união entre pessoas da mesma metade. Da mesma maneira, as relações de afinidade ideais ocorrem entre pessoas de metades distintas

Como na mitologia Kaingang, a tradição taoísta traz o conceito Yin e Yang como duas forças fundamentais e opostas que se complementam e se encontram no todo e em todas as coisas. Olhar para este princípio, desta forma gráfica representada pelo preto e o branco, nos traz a compreensão destes altos e baixos, deste ir e vir da vida. E dentro deste movimento constante, buscar o equilíbrio, o centro, a sua própria luz interior.

Ao buscarmos, tanto no Cristianismo como no Judaísmo uma base dessa dualidade, encontramos também uma busca pela UNICIDADE, pelo Deus UNO e masculino, ao mesmo tempo em que remete ao TRINO: Pai – Filho – Espirito Santo, que no nosso entender seria o Pai – Mãe – Filho.

Essa busca teológica e filosófica da UNICIDADE no corpo da religião se reflete no corpo físico e nas estruturas relacionais do ser humano.

A mulher e o sagrado feminino, não podem ser ignorados e suprimidos, pois compõe a base da estrutura geracional da vida. Somos a junção do Pai e da Mãe, do feminino e do masculino que dão à luz da vida. Em nome do pai e da mãe, sou filha (o)!

 

 

[1] Baptista da Silva, Sérgio. Dualismo e cosmologia Kaingang: o xamã e o domínio da floresta in Horiz. antropol. vol.8 no.18 Porto Alegre Dez. 2002

[2] Ibidem

[3] Clémentine Ismérie Maréchal e Herbert Walter Hermann.  O xamanismo Kaingang como potência decolonizadora in https://journals.openedition.org/horizontes/2314?lang=es

[4] A primeira kujà (desenho de Carolaine Carvalho, sobrinha de Iracema, fevereiro de 2017). Ibidem.

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